12 de set. de 2009

Sobrevivência

Vi um brilho doce num lampejo de olhar. Era um menino em corpo de titã.

11 de ago. de 2009

No dia em que o lótus floresceu, a lama pariu de suas entranhas a mais rara beleza. A lama engravida da flor e é a flor que dá outro lugar à lama no mundo. Quando a flor nasceu, a estranheza do mundo riu da ignorância das gentes. Elas haviam esquecido que é no parto da flor que a vida se faz.

10 de ago. de 2009

4 de ago. de 2009

Pampeanas ou aos de nossa casa

Foi numa viagem ligeira ao sul de seu coração que viu nascer o sol. Um sol de inverno feito para iluminar a memória, enquanto sorvia o gosto quente de seu chimarrão. Era agosto e o sol fazia ver ao longe o pasto verde das terras das gentes pampeanas. Latifúndios de sua alma.

30 de jul. de 2009

Desejo

Tenho saudades dos textos que não escrevi. Textos de noites de vento morno, que deixam torpes os pensamentos, suam a pele e amolecem as carnes. Textos da memória do futuro.

29 de jul. de 2009

Zen ou a arte de doer

Somos feitos dos afetos que temos, dos que não temos e daqueles que nos fazem falta. Se nos fazem falta, é porque ainda não tivemos a coragem necessária de sentir a dor com franqueza. Acolha-a. Doer também é impermanente.

Entre borboletas e katanas

Tua mão contorna minhas veias abertas. Silencia meu sangue bruto derramado que agora estanca. Toques minhas feridas para que não ardam mais. Não as abra. Cuida-as com teus beijos. Não falseies, pois minhas veias cicatrizam ainda que pequenas gotas de sangue sigam emanando de meus profundos cortes. Lava-as com o ardor de quem ama. Cobre-as com tua pele, que nela me abrigarei.

Idas e vindas ou o espelho

Olha-me com o olho que me desejo. Desnuda-me com as mãos que a ti me dei. Cobre-me com a pele que de ti a mim doei. Vaga-te pelas minhas veias que a mim a ti pulsei. Volta-te aos pés que a mim vaguei. Cuida-me, que a ti a mim permito. Choro-te a cada descoberta que de ti a mim faltei em tantas vezes. Abraço-te a cada coragem que de ti a mim concedo. Amo-te, que de ti a mim vislumbras. Amo-me, que de mim a ti não me perco, mas te me encontro.
Vai menina, vê se corre! porque o mundo não te espera e a noite não tarda.

Para não esquecer de voar

Minhas asas batem, mas sou pássaro ferido de profundo corte mortal. Quero renascer, mas não sei me parir. Procuro as partes de minhas entranhas em que serei recebida e acarinhada. Sou Fênix de asa quebrada.

Autorretrato

Busco nas fotos velhas como eu as sensações que não tenho mais lembrança. Minha alma centenária se esgueira em modos de criança. Corro, pulo e ganho roxos para contar os mil anos que vivi.

Contornos

Vejo-te, mas não porque tenho olhos. Vejo-te, mas não porque estás aqui. Vejo-te, não porque te moves em minha direção. Se te vejo é porque hoje sou visível.

Contornos 2

Que dizer das palavras que se desnudam sem vergonhas entre pêlos e coxas?

Sem pudores

Sou fácil, fácil. Uma caneca de chá e serei eternamente contente.

Canis et Circensis

A cada cegueira que vê e a cada surdez que ouve me convenço que só posso cheirar o mundo.

Perfumes

Um dia me disseram para acreditar que da janela veria melhor o mundo. Lá fiquei a fitar as crianças que brincavam no gramado, as gentes apressadas com suas sacolas de supermercado, os operários trabalhando. Olhei tanto, que ceguei com a claridade. No dia em que ceguei, me dei conta que fora apenas isso que aprendera. Nesse dia, atravessei a janela, abri minhas asas e narinas, e saí voando.

Madeira
(Na lente: Laize)